Conceitos e Dogmas

Conceitos e Dogmas

Capítulo IV

 

"Mas, do mesmo modo que, para se ler um livro é preciso

 inicialmente abri-lo, depois querer e saber lê-lo, para 

explorar as profundezas do Ser é necessário 

um ato de  vontade". 

(O Gênio Céltico e o Mundo Invisível -capítulo 8 – Léon Denis.)

 

    A vontade é uma grande virtude. É ela que possibilita novas descobertas que desencadeiam novas esperanças. Mas, não basta somente a presença da vontade é necessário muito mais! Determinação e coragem para alçar voo livre. Afastados do casulo de preconceitos, torna-se possível analisar e avaliar as variantes nas ideologias de fé, especialmente quando apresentam diferentes formulas para a solução do mesmo problema, sem que a sua essência sofra alterações. Um parâmetro entre duas importantes religiões, por cultivarem conceitos antagônicos relacionados aos Anjos, Paraíso, Inferno e Purgatório, o Catolicismo e o Espiritismo nos convidam a um momento de reflexão.

    Uma, acredita ser o Paraíso, lugar destinado aos bons e o Inferno para os maus. Outra, crê num Paraíso ou morada final para todos os filhos de Deus sem distinção e o Inferno, como regiões espirituais transitórias, habitadas por espíritos que ainda cultivam pensamentos, palavras e atos contrários às Leis Divinas.

    Para os católicos, a salvação é a recompensa esperada por todos. É a salvação da alma que, segundo a crença, após a morte irá para o Céu onde desfrutará o descanso da morada eterna. O cristão morrendo com pecado leve, estagiará no Purgatório (reino intermediário entre o Céu e o Inferno) para a purificação da alma. A forma do castigo e o tempo de permanência, dependerão do tipo de vida que o indivíduo levou na Terra. 

    Diante do pecado mortal haverá punição perpétua no inferno.  Muitos creem ser o Inferno, o reino de Satã.  Este, mais poderoso que o próprio Criador visto que, as almas sob seu domínio escapam ao resgate de Deus. Um local de castigos eternos e sem possibilidade de arrependimento, pois seria tarde demais.

    No entendimento espírita, a interpretação de uma condenação eterna contraria a Suprema Justiça e o Amor de Deus, por entender que o inferno nada oferece de útil para os filhos de Deus. A finalidade do castigo não é outra senão a reabilitação. Se o sofrimento no Inferno servisse para reabilitar infratores, seria viável a aceitação de tal pregação. Da forma colocada, destacam-se dois agravantes: torna inviável à vontade do filho em se redimir e, rebaixa a Inteligência Divina a nível inferior à dos homens, que, através de processos educativos adequados, recuperam milhares de criminosos.

 

CÉU E INFERNO SÃO, EM ESSÊNCIA,

ESTADOS DE CONSCIÊNCIA.

 

    Visão espírita de Paraíso ou Céu: Para a Ciência Espírita, não há um Paraíso e sim, paradisíacas regiões extrafísico, onde moram os espíritos já considerados puros e de diversos graus evolutivos. Os que já desenvolveram as potencialidades latentes como as virtudes do saber e da moralidade. Condições estas, que os habilitam viver em verdadeiros paraísos onde a Alma experimenta plena felicidade.

  • ... Diferentemente do que aprendemos no catecismo, essas regiões, conhecidas como paraíso, são lugares onde o trabalho e a ação, atuam no campo universal da criação, do bem e do saber. A vida espiritual não é uma inércia. Como na Terra, o trabalho é a mola propulsora da evolução... 
  • A grande diferença, segundo a Doutrina Espírita é a ausência da fadiga física. A felicidade proporcionada pelo Paraíso consiste no conhecimento e compreensão da Grandiosidade Divina, na ausência de qualquer sofrimento físico e moral, na satisfação íntima, na serenidade, no amor que une todos os seres; portanto, na ausência de todo aborrecimento proveniente da relação com os maus e, acima de tudo, na compreensão dos mistérios de Deus, revelados aos mais dignos. (Allan Kardec – O Céu e o Inferno).

 

Quanto à palavra inferno, Pedro Apolinário, através da Biblioteca Eletrônica http://www.profecias.com.br/explicacao/inferno-30/01/2005 esclarece dúvidas:

  •  Inferno Origem da palavra inferno – do latim  - "inferi, inferior, que vai para baixo". Esta palavra, foi normalmente usada pelos tradutores para expressar o sentido do termo hebraico "Sheol" e dos gregos - "Hades, Geena e Tártaro".
  •  Sheol  Este vocábulo aparece 62 vezes no Velho Testamento. Sheol era o lugar para onde iam os mortos, por isso é sinônimo de sepultura ou lugar de silêncio dos mortos. Sheol nunca teve, em hebraico, a ideia de lugar de suplício para os mortos. Sendo difícil traduzi-lo porque nenhuma palavra, em português, dá exata ideia do significado original. O melhor é mantê-la transliterada, como fazem muitas traduções. Experimente traduzir Sheol por Inferno, nestas duas passagens: Gen. 42:38 e Jonas 1:2.

    Os estados infernais, segundo revelações espíritas, são planos extrafísico onde são atraídos, pela afinidade vibracional, espíritos endividados moralmente, que ali estagiam por um período indeterminado, mas não eterno. Reconhecido o equívoco (arrependidos), o seu padrão vibratório se modifica gradativamente e estabelece, naturalmente, afinidades com outras formas de pensamentos. Libertos do condicionamento psíquico que os alienou, avaliarão a própria situação espiritual e, a partir daí, iniciarão um planejamento para novas experiências de reajuste.

    Se, no limiar do terceiro milênio atingimos novos tempos é oportuno mudar o enfoque das crenças cultivadas. Hoje, alimentar a mais remota ideia da criação de seres eternamente voltados para o Mal (demônios), leva a descrer na capacidade de melhoria do Homem e da Grandiosidade do Amor de Deus para com seus filhos.

    Em pleno trânsito para uma nova época, a Era do Terceiro Milênio onde, a evolução da Humanidade se mostra em todos os quadrantes do Globo, vem sendo exigido o reconhecimento da sua aptidão para julgar as coisas com maior clareza e coerência. Atualmente, entende-se que somos individualidades cósmicas, filhos e filhas da mesma Vontade Criadora e, consequentemente, peça importante no complexo mecanismo cósmico. A igualdade de direitos e oportunidades, leva a repensar sobre as ideias que perduram no Cristianismo. A perdição como morada eterna no Inferno para o mau e a salvação no Paraíso, reservada para o bom filho.

    Quanto aos castigos, não faz sentido supor que Deus estabeleça, mediante a infração de um de seus filhos, a sua condenação eterna. O doente necessita cuidados especiais e não a punição eterna e os perversos do mundo, os infratores das Leis Divinas, são enfermos da alma e necessitam tratamento. Se o Criador desamparar em qualquer circunstância um de seus filhos, o amor Divino não passará de mera ilusão.

    Considerando o Universo, a energia de Deus atuando sabiamente e com regras próprias e nós, sementes dessa Força, coerente é supor que seu mecanismo estabelece formas justas e imparciais, direcionadas ao progresso Moral e Espiritual do Homem. O Pai, em seu Projeto da Criação, não teria como objetivo a condenação dos filhos ainda ignorantes, fruto da imaturidade de cada Ser. A justiça, sendo a própria essência do Criador, se faz presente nas Leis Naturais da Vida estabelecendo sim, que cada um colha a sua plantação, mesmo que, a princípio, a semeadura apresente baixa qualidade. Enche-nos de esperanças a certeza de que, cedo ou tarde, todos os filhos de Deus atingirão a maturidade espiritual que os habilitam viverem em um eterno Paraíso.

 

AS IGREJAS E OS DOGMAS

    A ideia que foi feita do Inferno, na doutrina cristã, surgiu no paganismo quando ainda não havia melhor entendimento da Justiça Divina. Acreditava-se que os homens maus só poderiam merecer um castigo eterno. Na verdade, os dogmas das Igrejas que sustentam a crença num Paraíso para os filhos bons e as penas eternas no Inferno reservadas para os maus, estão se desgastando e caindo num grande esvaziamento, inclusive entre os próprios teólogos. As raízes de tal crença, prendem-se nos tempos em que a mentalidade humana era outra. Hoje, não são, dentro das próprias Igrejas, mais do que espantalhos a amedrontar e conter os maus. Por outro lado, a ideia da condenação eterna, a ameaça do inferno, o temor dos suplícios nos tempos de fé cega, persistem em amedrontar os que ainda ignoram a sua origem divina. 

 

ANJOS E DEMÔNIOS

 

    Segundo a crença, não só de católicos como de outras doutrinas, o primeiro demônio era anjo. Anjo colocado por Deus no alto da escala evolutiva; um filho especial, porém, este, rebelou-se. Difícil crer que algo tenha dado errado no projeto do Criador e, justamente com o filho escolhido para ocupar tão alto posto na hierarquia da Criação, pois, nenhuma alma virtuosa: anjo, arcanjo, santo, retroage anulando suas conquistas virtuosas e torna-se perversa. Da mesma forma, ninguém  se transforma virtuosos da noite para o dia. Desenvolver as virtudes de um “Anjo” demanda uma longa e árdua caminhada. A angelitude ou plenitude é conquistada pelas vias da evolução espiritual que, através de uma vivência milenar, leva, gradativamente, a erigir os pilares das virtudes extinguindo os vícios, reformando o homem, elevando-o ao patamar angelical.

    Com amparo coerente da razão é possível situar a Criação dentro de uma única forma, sem discriminação, todos os seres inteligentes que povoam a Terra e as outras esferas habitadas (Na casa do Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, Jesus não o teria dito). Acredita-se que Deus criou seus filhos todos iguais e com aptidões para aprender a pensar, libertar-se dos instintos inferiores e passar a formular juízo ético, jurídico e religioso.

    Desde o momento da Criação, os seres, impulsionados pela força da Natureza, em um processo lento e contínuo, progridem incessantemente. Ao atingirem a plenitude da Alma, veem-se transformados em seres de luz, verdadeiros Anjos. Para tanto, o mecanismo da Criação disponibiliza oportunidades infinitas que possibilitam, a cada um, cedo ou tarde, conquistar a perfeição do Anjo, Arcanjo... Com direitos à felicidade plena.

    Na visão da Doutrina Espírita, a partir do embrião do ser inteligente até ao anjo, há uma união na qual, cada uma das etapas assinala um grau de progresso. Existem criaturas em todos os patamares da moralidade, galgando a imensa escala de aperfeiçoamento. Na Criação há, portanto, ignorância e sabedoria, bondade e maldade. Seres ainda profundamente inclinados à prática do mal e comprazendo-se com ele, demonstrando tão-somente o estágio (infância) da sua vida espiritual. A estes podemos denominar demônios (estágio temporário), pois ainda são capazes de todas as maldades. No entanto, apoiar a ideia de que serão eternos demônios é um tanto difícil, pois sugere falha e distinção na criação quando, uns desenvolvem a seiva do Bem enquanto outros, se perdem pelos caminhos e o Mal se instala fortemente coibindo as tendências para o Bem. 

    Um amor incondicional aponta que os “demônios” (vivos ou mortos) são como filhos ainda crianças, engatinhando no cenário da moralidade. Na medida em que, impulsionados pelas exigências naturais da evolução, a responsabilidade se apresenta, lentamente hão de erguer-se e, na condição de filhos adultos, conscientes e esclarecidos poderão, finalmente, mostrar suas potencialidades. No entanto, os que, por indisciplina, negligência ou má vontade e, fazendo uso do seu livre arbítrio persistem em ficar por mais tempo, praticando ou sendo conivente com o Mal, sofrem as consequências das atitudes e o mau hábito enfraquece-hes a capacidade de visualizar o grande equívoco. Todavia, um dia, a manifestação do Divino Pai, inevitavelmente se fará ouvir afastando-os lentamente da vida desregrada e das suas consequências. Assim, demônio pode ser considerado o próprio mal, o grito desesperado da parte teimosa da Humanidade. Aquela que reluta ajustar-se aos objetivos coletivos do “Programa Universal da Criação”.

    Sobre a natureza dos anjos e dos demônios, muitas doutrinas, por não aceitarem a lei do progresso, concluíram que os anjos seriam criações especiais.  Foi assim que se criou um Deus parcial, favorecendo alguns de seus filhos e, a outros, impondo os maiores obstáculos e desgraças. Mas, os tempos mudaram e diante de uma nova visão, vêm se delineando o Amor Incondicional do Criador; Este amor Paterno/Materno que não condena e sim, acolhe, está sendo observado, analisado e definido por mentes mais amplamente evangelizadas, claras e precisas. Não é mais possível aceitar não só a ideia, bem como, qualquer doutrina que não resplenda na sua plenitude, a imparcialidade do Amor e da Justiça Divina para com seus filhos.

 

A EVOLUÇÃO É UMA CONSTANTE

NO UNIVERSO DE DEUS

 

    É necessário considerar que o mundo é dinâmico e em constante evolução, o que gera progresso. Os atos humanos atuam como agentes transformadores, que se aperfeiçoam na medida em que o Homem desenvolve a capacidade de perceber aquilo que o constrói e o que o destrói. Compreender, julgar, discernir, só se desenvolve lentamente, pois a Natureza não dá saltos.  Esta é a mecânica da maturidade espiritual que levará o Homem a ligar a sua Procedência, com o seu  Meio e o seu Fim. Tal visão faculta a certeza de que, no sábio Mecanismo da Criação, Deus, como Pai imparcial, disponibiliza o tempo que for necessário para que todos os seus filhos, dentro do tempo de cada um, evoluam e, através dos erros e acertos, façam brotar e florir as virtudes da Alma, das quais são dotados.

 

PURGATÓRIO

 

    Pesquisadores das Escrituras Sagradas nos lembram de que, nelas, não existe a palavra purgatório. Purgatório foi o nome dado pelo Catolicismo e passou a fazer parte dos dogmas da Igreja, pela necessidade de um local que abrigasse as almas dos que não eram maus o suficiente para habitar o Inferno, nem bons para merecer o Céu.

    Para os espíritas, são planos imateriais próximos da Terra, que abrigam os espíritos dos recém-mortos por período mais ou menos longo, para revisão e avaliação de suas obras. Conhecido como Umbral (portal, limiar, entrada) é uma dimensão de angústia e sofrimento ocasionado por estados alterados da consciência (verdadeiro inferno consciencial). Segundo André Luiz, (livro Nosso Lar):... O Umbral funciona como região destinada ao esgotamento, "expurgo de resíduos mentais"; uma espécie de zona purgatorial onde se queima a prestações, o material corrosivo gerado pelas ilusões que a criatura adquiriu por atacado, menosprezando o sublime ensejo de uma existência terrena...

    Para melhor entendimento quanto à necessidade de estagiar, por um tempo indefinido no Umbral ou Purgatório, compare a mente humana a uma esponja suja;  para que esta retome a normalidade é necessário lavar, expelir as impurezas. Cada indivíduo elabora través dos pensamentos, palavras, sentimentos e atos, a sua esponja. Uns conseguem mantê-la mais limpa e leve, outros nem tanto. 

    Paralelas ao local de um Umbral, existem colônias de socorristas como o Nosso Lar e outras narradas na literatura espírita. São grupos de dedicados trabalhadores, os anjos da guarda que prestam atendimento aos recém-mortos e aos vivos. O anjo da guarda pode ser considerado o espírito missionário, o amigo fiel e dedicado que Deus proporciona aos seus filhos. O protetor espiritual ou mentor espiritual. Ele procura inspirar os seus protegidos.

 

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